A vida de um bebê pode valer menos que a vida de um animal?

A vida de um bebê pode valer menos que a vida de um animal?

Para o filósofo Peter Singer, em alguns casos específicos, a resposta é sim. Peter Singer, autor de diversos livros bastante conhecidos, entre eles, “Ética Prática“, é um filósofo que chega a conclusões bastante incomuns e mesmo assustadoras para a maioria das pessoas, quando reflete sobre ética e bioética, seu campo de especialidade. E por conta de suas idéias, muitas vezes interpretadas de modo incorreto, ele já foi hostilizado em diversos países, como Alemanha e Austria.

Quando o animal pode fazer essas coisas ... eu acho que sua vida é mais preciosa e deve ser mais protegida do que a vida de um ser humano que está em um nível mental inferior

"Quando o animal pode fazer essas coisas ... eu acho que sua vida é mais preciosa e deve ser mais protegida do que a vida de um ser humano que está em um nível mental inferior"

A entrevista abaixo foi dada para a revista Galileu, e é possível ver que de pouco polêmicas suas idéias nada possuem.

O que é mais assustador nas idéias de Peter Singer não são suas conclusões em sí, que, ditas fora do contexto, faz com que ele pareça um nazista do século XXI. O mais assustador é que ele chega a tais conclusões a partir de premissas que a maioria das pessoas aceita sem nenhuma controvérsia, de modo que a leitura de seus textos quase que imediatamente obriga o leitor a rever muito de seus conceitos, pois se queremos negar suas conclusões, temos que negar algumas premissas aceitas por quase todas as pessoas.

Leia a entrevista abaixo:

Galileu: O que o sr. acha da polêmica em torno de suas idéias? Ela ajuda mais o sr. ou seus oponentes?

Peter Singer: Talvez a polêmica ajude ambos, mas eventualmente isso significa que mais pessoas ouviram falar de mim, e editores, provavelmente por essa razão, estão mais interessados em publicar meus livros.

Galileu: O sr. já foi hostilizado por seus oponentes?

Peter Singer: Recebi diversas ameaças na época de minha chegada a Princeton. Depois, não foram muitas.

Galileu: O sr. apóia o uso de embriões para pesquisa com células-tronco? O governo dos EUA está correto em limitar esses experimentos?

Livro "Ética Prática" - Leitura obrigatória para quem quer refletir sobre a vida

Livro "Ética Prática" - Leitura obrigatória para quem quer refletir sobre a vida

Peter Singer: As decisões do presidente Bush realmente não fazem muito sentido. Por um lado ele diz que quer proteger embriões, mas se recusa a permitir o uso daqueles que não terão nenhum futuro, os que estão congelados e são excedente de tratamentos em laboratórios de fertilização in vitro. Eles não se tornarão crianças. Mesmo que você acredite que eles têm o direito à vida — o que eu não acredito —, não se pode dizer que está sendo feito algo de bom ao recusar a permissão para seu uso em pesquisas.

Galileu: Um embrião deve ser considerado um ser humano? Existe um limite claro entre o que é um embrião e o que é um ser humano?

Peter Singer: Não tenho nenhum problema em dizer que, a partir do momento da concepção, um embrião é um ser humano vivo. O que mais poderia ser? O erro que muitas pessoas fazem — nas palavras do próprio presidente Bush — é supor que ‘porque’ ele é um ser humano ele tem o direito à vida, ou que é errado destruí-lo. Eu não acho que ele é um ser com um status moral, que requer proteção, pelo menos até que ele possa sentir dor ou alguma coisa. Obviamente, os embriões em laboratórios de que falamos há pouco não estão nesse estágio. Se você quer saber quando isso acontece, não sei ser preciso, mas é nas primeiras 20 semanas [de gestação].

Galileu: Então o que dá ao embrião o direito à vida é o surgimento de um sistema nervoso, que o torna capaz de sentir dor?

Peter Singer: Acho que esse é um ponto importante. Eu diria que até que um ser possa sentir dor, ele não pode ser realmente maltratado, portanto ele não tem um status moral que precisa ser totalmente protegido. Então surge a pergunta: ‘a partir de que ponto matar esse ser se torna algo gravemente errado?’ Eu diria: ‘Não até que haja alguma consciência de ‘Eu’, a consciência de estar existindo através do tempo’.

"a partir de que ponto matar esse ser se torna algo gravemente errado?" - Eu diria: "Não até que haja alguma consciência de 'Eu', a consciência de estar existindo através do tempo"

"a partir de que ponto matar esse ser se torna algo gravemente errado?" - Eu diria: "Não até que haja alguma consciência de 'Eu', a consciência de estar existindo através do tempo"

Galileu: Quais são as principais questões éticas sobre novas técnicas de fertilização in vitro? Já se chegou a alguma conclusão sobre as questões morais que envolvem a seleção de embriões?

Peter Singer: Eu acho que seleção de embriões é um dos assuntos mais difíceis — e que vai se tornar cada vez mais difícil ao longo dos próximos 10 ou 20 anos — porque se relaciona com o mapeamento do genoma humano. Estamos chegando ao ponto em que casais podem usar a fertilização in vitro para gerar certo número de embriões, aplicar testes genéticos e então selecionar aqueles cujas propriedades genéticas eles consideram melhores. Então há verdadeiras questões: os médicos estarão preparados para levar isso adiante? Os governos vão permitir ou vão tentar proibir?

Galileu: O Conselho Nuffield de Bioética, do Reino Unido, condena a seleção baseada em genes relacionados a comportamento. O que o sr. acha disso?

Peter Singer: Eu não apoiaria um banimento total da seleção de genes que afetam o comportamento. É razoável usar testes genéticos para evitar algumas doenças físicas graves, e podem existir distúrbios comportamentais que também são extremamente graves, por terem um efeito muito perturbador na vida de alguém. Tentar parar a pesquisa nessa área provavelmente não é a coisa certa. Conhecimento é geralmente algo bom. Nós precisamos ter razões muito fortes para acreditar que esse conhecimento será usado inadequadamente antes de dizer às pessoas para não fazer esse tipo de pesquisa, porque esse mau uso seria pior do que qualquer benefício que ele traria.

Galileu: O Sr. é um ativo defensor dos direitos animais. Como tenta convencer pessoas de que uma galinha sofrendo em uma granja pode afetar a vida delas?

Peter Singer: Eu tento apenas perguntar a elas o que justifica tratar animais dessa maneira: causar-lhes dor para lucrar alguns centavos a mais. Nossas atitudes sugerem que animais não se importam que existam resultados dos preconceitos que temos com outras espécies, que são de alguma forma semelhantes ao preconceito racial. Estamos familiarizados com isso em nossa história.

Galileu: O sr. compara a dor de animais à de humanos para justificar suas opiniões. Como se pode medir essa dor para compará-la?

Peter Singer: Só se pode comparar dor nesses casos de maneira imprecisa. Não se pode medir dor, tanto entre diferentes humanos quanto entre humanos e animais. Mas você pode observar o que os animais fazem para evitar essa dor.

Galileu: O sr. acha que os testes científicos em animais devem ser tolerados?

Peter Singer: Eu acho que as questões sempre são: ‘Quão importante esse conhecimento vai ser?’ e ‘Qual o custo do que está sendo obtido?’ E quando os custos envolvem sofrimento animal nós devemos ter o mesmo cuidado que teríamos com aquilo que causa sofrimento humano. Eu acho que se nós fizéssemos isso, encontraríamos com freqüência outros métodos de obter essa informação, sem maltratar animais.

Galileu: Mas, em ciência básica, nem sempre se sabe quão importante o conhecimento produzido será.

Peter Singer: Sim, mas ainda podemos discutir sobre se uma pesquisa é bem formulada e têm uma boa chance de aprimorar nosso conhecimento em uma área importante, ou se ela não é. Os grupos que revisam pedidos de verbas para pesquisa estão o tempo todo tentando dizer qual pesquisa é mais importante e qual não é.

Galileu: O sr. cria muita polêmica por defender o direito dos animais à vida ao mesmo tempo em que defende a eutanásia em bebês com problemas graves. A vida de um animal saudável vale mais que a de um recém-nascido com graves danos cerebrais?

Peter Singer: Eu não acho que a espécie seja um aspecto determinante, se temos um humano com danos cerebrais tão severos a ponto de ele ser incapaz de sentir qualquer coisa ou reconhecer sua mãe — o caso de anencefalia [ausência de cérebro], por exemplo. Quando o animal pode fazer essas coisas — sentir dor, andar por aí, reconhecer outros, sentir ligações emocionais com outros seres – eu acho que sua vida é mais preciosa e deve ser mais protegida do que a vida de um ser humano que está em um nível mental inferior.

Galileu: Em uma lógica utilitarista, a pena de morte pode ser aceitável para prevenir crimes futuros?

Peter Singer: Não, eu não acho. Especialmente porque não há evidências de que pena de morte iniba crimes mais eficientemente do que prisões de longo prazo. Existe evidência de que, na verdade, a pena de morte brutaliza a sociedade.

Galileu: Algumas pessoas vêem com suspeita grupos de cientistas que se reúnem em suas salas para decidir o que é certo e o que é errado. Como o sr. se relaciona com a opinião pública?

Peter Singer: Eu acho que o público tem toda razão em ficar desconfiado. Essas decisões devem ser tomadas por um público informado, após extensas discussões. Algo que estou tentando fazer é divulgar esses assuntos para o público, de forma que ele possa pensar e participar da discussão. Não acho que meu trabalho seja tomar decisões. Não quero ser um controlador autoritário sobre o que é certo ou errado. Eu acho que meu papel é apontar os argumentos que estão aí para as pessoas refletirem.

Galileu: Apesar de o sr. ser judeu, alguns críticos já o chamaram de nazista. O sr. teme que suas idéias sobre eutanásia sejam deturpadas para dar suporte aos defensores da limpeza étnica?

Peter Singer: Não. Qualquer um que ler minhas idéias vai ver que elas são completamente diferentes e não justificam nada deste tipo. Isso é um artifício retórico de oponentes que não estão realmente interessados em saber quais são minhas opiniões.

E você? Concorda com as opiniões de Peter Singer? O que achou desta entrevista?

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